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As Novecentos e Sessenta Janelas da Alma

O que aconteceu? Conte-me, por favor… talvez tenha dormido demais… e agora que pareço ter acordado… ainda tonto… não sou mais capaz de pisar direito esse chão… de reconhecer esse lugar. Reconheço a brisa tropical… reconheço essa chuva persistente dizendo que voltei… mas essa luz difusa… nunca foi a luz de meu lugar… tampouco essa interminável aurora. O que aconteceu? De onde vieram estes novecentos e sessenta olhos? Por que não consigo ler neles mais nada ? Eu… logo eu… que sempre fui um excelente arrombador de janelas… devastação… é tão somente devastação o que vejo nessas janelas… mas certamente não sei mais ler olhos… nem mais arrombar janelas… recordo que via nelas facilmente o fogo… o fogo que costuma consumir as almas cheias de horizonte… ou o gelo… o gelo que defende aquelas almas mais doces e distraídas, quando pegas no susto… via as danças do medo, travestido de fúria… via a pantomima do desejo, sob a capa do desdém… via o ódio salivando gentileza… via… eu via… foram inumeráveis os olhos que arrombei… e que certamente souberam, também, aqui acolá, arrombar os meus… afinal, são décadas de cárcere… e se sobrevivi tanto tempo aqui dentro foi por confiar em meus instintos de leitor… mas ninguém se mantém décadas sem dormir… e eu não resisti… e cochilei. Agora que pareço ter acordado, vejo estas novecentos e sessenta janelas devastadas… novecentos e sessenta janelas devastadas… certamente aquele doutor diria, do fundo de sua poltrona: “são teus olhos que secaram com o sal dos anos e essa devastação é tua”… mas esse dizer é dos tribunais… lugar de lâminas, de culpados e inocentes… os tribunais… esses lugares aparentados com o teatro… que extraíram do teatro toda seiva… e ficaram apenas com a casca seca da simulação… os tribunais e as poltronas são cheios de eus e tus… e para ler olhos e arrombar janelas não podem existir nem poltronas, nem eus, nem tus… é a regra de ouro da boa leitura. Não costumava fazer isso antes… é impróprio para a leitura… e para os arrombamentos… mas resolvi falar algo em voz alta… quem sabe uma palavra balançasse o ar… e algo além de destroços pudesse se mostrar. Afinal, um bom arrombador de janelas às vezes precisa improvisar… e lançar algumas palavras em certas paisagens emperradas. Então, eu disse: “Numa noite de tempestade, em meio a raios que tocavam o solo tal qual chicote, um homem ouviu a voz de Deus. Ele lhe ordenava que fosse lá fora e matasse todos os bois do pasto. O homem não pensou duas vezes e saiu de facão na mão. Degolou um a um, cabeça após cabeça, todo o seu precioso rebanho, tornando a água da chuva mais espessa e densa com o sangue que escorria em meio àquela noite de trovões”. Esperei alguma reação. Os novecentos e sessenta olhos permaneceram ali aonde estavam… exibindo aquele silêncio, mineral e indiferente… tão próprio das ruínas… O que aconteceu? Conte-me, por favor… não posso ter cochilado por tanto tempo… cinco minutos… cinqüenta anos… cinco séculos… novecentos e sessenta eus… novecentos e sessenta tus… novecentos e sessenta janelas devastadas.

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